Sou de 97, então tive o privilégio de provar uma infância sem celulares e de uma adolescência com poucas redes sociais, e que só utilizamos no computador. Então, era só desligar o computador e pronto, sem acesso ao mundo digital. Na época, sair de casa, ir para o sítio dos tios, por exemplo, não era nada atrativo, pois significava ficar longe do MSN (para os mais jovens, era uma rede social somente de conversas, tipo um WhatsApp).
Eu peguei o começo dos apps de redes sociais, mas já estava no final da minha adolescência, coisa ali de 16 anos. Então, a cabeça já estava mais madura. Pude aproveitar uma adolescência sem tanta exposição e sem a necessidade de estar conectada o tempo todo. Também, nunca fui rica, então até tinha celular, mas não tinha planos de internet e nem podia colocar crédito sempre, colocava só o mínimo para não perder a linha telefônica. Ou seja, só estava conectada se tivesse wi-fi, e fora de casa não era comum ter. Hoje tem wi-fi em lojas, restaurantes e por aí vai, mas nos primórdios não era assim.
E isso me deu privilégios, eu não estava conectada fora de casa, então ir a escola ou sair com os amigos era realmente estar presente, sem distrações de notificações, sem amigos tirando fotos zoadas suas e postando nos stories. E o mais importante de tudo, sem a cultura coach influenciando os meus pensamentos. A adolescência já é complicada e sensível por si só, imagine com as vozes coachs e os mantras de alta produtividade e você é capaz de tudo. Se agora adulta já acho nocivo toda essa enxurrada de ensinamentos rasos e cursos extremamente caros, tu imagina ser afetada por isso com uma mente adolescente. Valeu anos 90, vocês me salvaram!
Por isso, me sinto muito privilegiada por ter nascido em 1997, por ter provado uma infância com limites já pré estabelecidos de telas. Afinal, os desenhos só passam na tv de manhã e por poucas horas, era tudo com menos cor e movimentos, sem gerar ansiedade e como os desenhos de agora. E eu só os assistia quando já tinha uns 4 anos. E, quando acabava os desenhos, era isso mesmo, não tinha o que fazer, não tinha Youtube para abrir e procurar um novo vídeo para se entreter. Que paz, meus amigos! Que paz!
Vivi algo que os pais hoje tentam com tanta dificuldade fazer com seus filhos: os primeiros anos sem telas. E eu vivi isso não porque meus pais sabiam o que estavam fazendo, mas simplesmente porque era o normal, o comum e o possível. Fico imaginando a paz mental para os meus pais também, de não precisarem lutar por uma infância sem telas, porque simplesmente não havia a realidade de uma infância com telas.
Na adolescência, tive acesso a computador e internet, mas de rede social tinha apenas MSN e Orkut, eu só usava o MSN, não achei graça no Orkut e logo após criar a minha conta já a desfiz. Então, conversava com gente que já conhecia na vida real, ou com alguns amigos da minha prima. Tudo bem tranquilo, saudável e com meus pais de olho no horário e com quem eu estava falando.
Quando chegou o Facebook, WhatsApp e Instagram e com eles os apps, eu já estava mais velha, tinha 16 anos. A mente já estava um pouco mais madura e pude viver o começo dessas redes sociais, quando as coisas ainda eram “puras” e saudáveis. Não tinha empresa anunciando nada, não tinha influencer. Lembro do começo do Instagram e do diferencial de postar uma foto em tempo real, tipo uaaaal que coisa incrível.
Então, numa vibe meio tumbler, as fotos eram mais conceituais ou bem aleatórias mesmo. Mas, não tinha stories, vídeos, influencer e necessidade de uma presença digital todo dia e a toda hora. Você postava de vez em quando, e o feed não conseguia ser infinito, pois só apareciam postagens de quem você seguia, então logo você já tinha visto tudo e podia ler uma mensagem mais ou menos assim “você já viu tudo, volte amanhã”. Que paz, meus amigos! Que paz!
Coisas que eram simplesmente normais, e que faziam bem para nós sem nem ao menos a gente saber. Coisas que hoje lutamos para ter novamente. Lutamos para ter um controle sobre o uso das redes sociais, lutamos para ficar longe das telas, lutamos para estarmos realmente presentes em um lugar, sem se distrair a cada notificação ou mesmo pegar o celular por hábito, o tal FOMO.
Vejo que na história da humanidade, tendemos a excessos, vemos isso na arte, na literatura, na moda. Vamos do 8 ao 80 e vice-versa. Por exemplo, no século XIX temos o Realismo e suas obras o mais fiel possível da realidade, mas no século seguinte temos o Modernismo, com obras longe da realidade, como as de Picasso. Vemos isso na moda também, com calças justas, quase embaladas a vácuo, e a moda seguinte: calças super largas (que por sinal, amo).
O que quero dizer com isso? Que nós usamos as redes sociais ao máximo, e que agora nossa mente clama por menos. Fomos ao excesso de telas e de estímulos, e que agora um novo movimento tem surgido: o ficar off. Mesmo influencers estão incentivando seus seguidores a estarem mais presentes na vida real e a limitarem o tempo nas redes sociais. A moda era ser blogueiro e influencer, mas logo a moda será uma vida de pouca exposição. Vamos do 8 ao 80, a história comprova o nosso comportamento.
Bem, que a paz reine, meus amigos! Que a vida no mundo digital seja apenas uma fração de uma vida bem vivida no mundo real. Que o mundo verdadeiro, aquele que tem cheiro, tem textura, seja cada vez mais atrativo. Se a minha geração já sente os impactos do digital, imagine as gerações mais novas. Precisamos voltar ao que realmente importa, para a saúde de todos. 1997 years e que paz, meus amigos! Que paz!
